Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

o bater do teu coração

Quando me leres terão já passado muito anos. Quando tudo isto faça algum sentido para ti, muitos mais estarão já sobrepostos aos anteriores...

Quando me leres, as tuas fotografias serão uma banalidade, serão apenas um elo na tua vida, mas hoje... hoje não. A tua fotografia de hoje foi, é e será um marco. Um marco na nossa vida e um alicerce nas fundações da nossa família.

Quando me leres, mais banal do que as tuas fotografias será o bater do teu coração... mas hoje, quando te ouvi... quando te ouvi o meu coração deixou de bater; apenas podia ouvir-te, apenas podia sentir no meu coração o ecoar rápido e forte do teu coraçãozinho.

És parte de mim e, hoje, essa unidade mostrou-se como nunca. És real, tão real como as lágrimas que senti ao ver-te e ao ouvir-te...

Quando me leres, não sei se algo disto terá sentido para ti... quando me leres serás diferente da fotografia que hoje vejo e revejo. Quando me leres e o teu coração bata, sabe que o meu coração baterá em uníssono com o teu...

sempre. como hoje, como da primeira vez em que te vi...


escrito inicialmente a 12 de dezembro de 2011

Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

reencontro


A vida mostra-nos o frágil que somos, talvez até mais do que uma vez por dia. Olhamos para trás e suspiramos. Respiramos fundo e pensamos no que podia ter acontecido.

Hoje o dia começou com uma dessas situações. A mistura explosiva invernal fazia-se sentir no alcatrão imóvel e traiçoeiro que me conduziu. Recta, curva, lomba, recta, curva e zás, lá estava ele: veículo e condutora, fora da estrada e a salvo de qualquer mazela.

Dou a volta, encosto. Queremos assegurar-nos (eu e os meus companheiros de viagem) de que tudo está bem. A condutora acidentada reconhece-me. No meio do nervosismo, trata-me pelo nome e isso parece reconfortá-la um pouco mais.

Trocámos conversas naturalmente desconexas, com nervosismo e telefonemas à mistura. Trocámos contactos... arrancámos em direcção ao nosso destino analisando cada milímetro do alcatrão que nos acompanhava com desconfiança.

Foi um reencontro curto e em circunstâncias pouco ortodoxas. Mas talvez por isso mesmo, hoje, eu
olho para trás e suspiro. Respiro fundo e penso no que podia ter acontecido.

Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011

lá fora

Lá fora a chuva cai. Incessantemente. Ouço-a cair de forma certa e repetitiva. Ouço-a gotejar aqui e além. À minha volta acumulam-se papéis e trabalho, vidas e histórias que conheço ou, em alternativa, vou conhecendo.

Lá fora ouço ruídos de festa, de euforia alcoólica que se intervalam com a chuva que, de mansinho, inunda a minha cabeça.

Lá fora jovens estudantes celebram um rito de passagem, aquele rito que, em alguns momentos da nossa vida, já nos pareceu a coisa mais importante do mundo e algo de que não poderíamos abdicar nunca.

Lá fora a minha vida já desfilou. Outros há que ainda não sabem que tudo muda e que as recordações serão os únicos sorrisos que, em dias como hoje, poderão acompanhar-nos.

Lá fora capas negras ondulam ao sabor dos passos, encharcadas com o peso da água que vão absorvendo. Passos apressados abrem caminho para um evento onde os relógios não existem e o tempo pára.

Lá fora há alegria e animação, desejo de vencer e de não ser vencido, gritos, berros e urras e sorrisos e risos e danças e bailes e coreografias e o sr. Manuel do bar e a mula...

Lá fora há, seguramente, alguém que no futuro esteja cá dentro a pensar como está tudo lá fora. com vista para os tais papéis, claro está...

Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

29

Este fim de semana foi bom. Foi relaxado e simples. Foi recheado e saboroso. Foi um fim de semana que nos trouxe um sorriso inesquecível, de orelha a orelha.

O outono parece ter chegado em força... as árvores pintaram-se de amarelo, como os teus cabelos e o fumo das queimadas desponta pelo horizonte da nossa cova da beira, preparando a terra para as sementes que hão-de frutificar.


Tudo começa a ser tratado, cuidado e preparado. Agora resta-nos esperar. pacientemente...

Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

vem chuva, vem (*)

Viajo na minha mente. Tento recordar formas simpáticas de fugir a este calor que queima a planície. Penso em montes brancos, pintados com açúcar em pó por frias noites de larga invernia, mas o choque térmico parece-me exageradamente extremado.

Refugio-me apenas em tardes de uma chuva monótona, triste e repetitiva. Contudo, a humidade que me percorre os ossos, como a maresia sobe pela praia da Madalena, tolda-me o pensamento.


Paro e recomeço.

Viajo na minha mente. Viajo até à fonte de água cristalina e fresca. Uma das muitas que preenche espaços de recordação na minha fresca serra. A temperatura amena. A água que escorre pelo granito a recordar a estação das chuvas e o degelo das neves. A brisa permanente que canta quando desliza pela urze...

Viajo. Viajo para fugir deste verão interminável. Espero a chuva que encha as fontes de água minguante.... espero...




(*) Título obviamente surripiado do mítico repertório de Jorge Palma

Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

sonata de outono (*)


Revisito textos antigos, revivo sentimentos e viajo até tempos passados: momentos de felicidade ou de tristeza fazem-me olhar para trás.

Muitos outros momentos houve que não tiveram direito a ver a luz de todos os monitores que por aqui vão passando. Recordo também alguns deles, como aquelas "imagens que passais pela retina". Paro de escrever e olho, absorto, o sol que, quente, fustiga os solos secos da campina.


É a monotonia de uma tarde de outono que me invade; apesar do que parece, o outono já chegou e, como ele, a monotonia que muitas vezes me invade e que, habitualmente, dura até às primeiras neves.


O tempo é, de facto, uma coisa tramada... apesar do sol, do calor e da roupa primaveril... o outono...


...instalou-se.



(*) Título obviamente surripiado do fantástico repertório de Carlos do Carmo

Terça-feira, 10 de Maio de 2011

saudades do futuro (*)


Hoje a tarde está a ser de trabalhos manuais, na preparação de actividades que se aproximam. O sol vai brincando comigo ao toca e foge, ora lambendo-me com o seu fogo, ora escondendo-se atrás das árvores que envolvem os vidros que dele me mantêm a salvo.

O verão parece agora querer chegar e, com ele, a alegria dos dias grandes, das tórridas tardes e noites abafadas... o eco do vazio que, não raras vezes, com ele se instala. Contudo, anseio pela sua chegada... os passeios, os salpicos de água, a areia da praia... o tempo que pára...

...e tudo porque estarás comigo, porque estaremos juntos... sem horas nem relógios nem pressas nem telefones nem computadores. Tu e eu. apenas.



(*) título obviamente surripiado de uma célebre música, que não a de Camané

Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

um dia completo

Hoje a bicicleta perdeu as teias de aranha que tinha já começado a ganhar e os papéis de uma tese há muito adiada deixaram, também eles, de ficar perdidos no tempo.

Reavivo memórias perdidas enquanto pedalo para, posteriormente, me lançar com grande afinco à escrita, à produção textual que DEVO terminar. O exercício físico despertou em mim algo que me fugia há algum tempo, assim como a escrita me exige que haja pedais que girem em torno de um eixo...


Pedalei e escrevo. Encontro nestas duas actividades uma complementaridade estranha e insondável. Por agora vou voltar ao trabalho, à tal escrita...



Logo, com o chegar da noite, volto para as nossas caminhadas que nos mostram sempre detalhes escondidos de uma Covilhã que temos vindo a esventrar diariamente.

Tenho vontade que anoiteça rápido, quero voltar, mais uma vez, a calcorrear - contigo - estas nossas ruas.

Terça-feira, 16 de Novembro de 2010


A vida tem destas coisas. Pequenos detalhes que nos fazem pensar e repensar o que somos e o que fazemos...

e o que faremos...

Carta a un imbécil

“Querido imbécil: No llegarás a comerte las próximas uvas, porque de aquí a un año estarás muerto. Y cuando digo muerto quiero decir muerto de verdad, criando malvas para los restos. No palmarás, te lo comunico, de forma heroica, ni útil, ni siquiera natural. Habrás fallecido estúpidamente, a ciento ochenta y en un cambio rasante, o una curva, susto cuando pongas para ti mismo cara de duro de película y metas gas, intrépido, jaleado por música imaginaria o real, creyéndote el rey del mambo. Lo peor del asunto, discúlpame, no será tu pellejo; que al fin y al cabo – salvo para ti mismo y algún familiar- no valdrá gran cosa al precio a que lo vas a vender. Lo malo es que te llevarás por delante, quizás, a gente que ningún interés tiene en acompañarte en el viaje: amigos incautos, la familia que vaya de vacaciones en el coche opuesto, el peatón, el camionero que trabaja para ganarse la vida. Sería más práctico y más limpio, ya puestos a eso, que acelerases hasta doscientos y te estamparas en bajorrelieve contra una pared, que es un gesto más íntimo y considerado. Pero sé que no lo harás así, por que en lo tuyo no hay voluntad de hacerte pupita. Cuando llegue será de forma imprevista, y aún tendrás tiempo de poner ojos de esto no me puede ocurrir a mi antes de romperte los cuernos y quedarte, como dicen los clásicos, mirando a Triana para los restos.

Llevo varios años viéndote pasar a mi lado por carreteras y autovías, abonado el carril izquierdo, dándome las luces para que te deje, en el acto, franco el paso. A veces te pegas a un palmo del parachoques trasero, confiando siempre, ante mi posible frenada, en la sólida mecánica de tu coche y en tus proverbiales reflejos y sangre fría. En la intrepidez de tu golpe de vista y en el valor helado, sereno, que tanta admiración despierta a tu alrededor y, en especial, en ti mismo. Guapo. Machote. Que eres un virtuoso.

Mira, voy a confiarte un secreto. Somos tan frágiles que te temblarían las manos si lo supieras. Todo cuanto tenemos, que parece tan sólido y tan valioso y tan definitivo, se va al carajo en un soplo, en un segundo, al menor descuido nuestro y al menor guiño del azar, la vida, la condición humana. Basta un insecto, un virus, un trocito de metal en forma de metralla o bala, una gota de agua o de aceite sobre el asfalto, un estornudo, una cualquiera de esas bromas pesadas con las que el Universo se complace en pasar el rato, y tú y todo lo que tienes, y todo lo que representas, y todo lo que amas, y todo lo que fuiste, lo que eres y lo que podrías haber sido, se va al diablo y desaparece para siempre sin que vuelva nunca jamás. Así nos iremos todos, claro. Pero unos se irán antes que otros. Y a ti, querido, te toca en 1994 la papeleta. Claro que a lo mejor me mato yo antes. O a lo mejor me matas tú. Pero yo sé que eso puede ocurrirme cualquier día en cualquier sitio, porque mi condición es mortal. Mientras que a ti ni siquiera se te ha pasado por la cabeza.

Lamento no poder comunicarte las circunstancias exactas en que efectuarás -afortunadamente- tu último adelantamiento. Ignoro si tu nombre quedará sepultado en las estadísticas de operaciones retorno, puentes o fines de semana, o si merecerás tratamiento individual, tal vez con foto de hierros y retorcidos pies asomando bajo una manta -siempre se pierde un zapato, recuerda, no uses calcetines blancos- en las páginas de un diario o, incluso, con suerte, en un informativo de la tele. Pero las circunstancias de tu óbito me traen al fresco. Como ya sabes que no suelo cortarme en esta página, diré que ni siquiera me importas tú.

Hay quien afirma que toda la vida humana es sagrada, y puede que sea cierto. Pero no resulta menos cierto que ya he visto desaparecer unas cuantas vidas, y que algunas me parecen menos sagradas que otras. En cuanto a la tuya, y me refiero a tu vida personal e intransferible -salvo que creas en la reencarnación-, allá cada cual si quiere pagar tan caro el dudoso placer de cabalgar a caballos de hojalata que devoran a su jinete. Y no vengas con eso del amor al riesgo y el vivir peligrosamente. Conozco a mucha gente que sabe perfectamente, de grado o por fuerza, lo que es riesgo y la vida peligrosa. Gente que sí merecen que derramen lágrimas por ella cuando le pican el billete, en lugar de lamentar la desaparición de fulanos como tú; de tipos incapaces de valorar la vida que poseen y que por eso la malgastan. Qué sabes tú del riesgo, capullo. Y de la muerte. Y de la vida. Que tengas buen viaje.”

Carta a un imbécil (1994) – Arturo Pérez Reverte


Hoje não consigo dizer mais nada. Talvez amanhã. Talvez...

Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

a norte



Um fim de semana a norte, embalado pelo som do mar que se ia enrolando suavemente na areia fria. Escutei-o infinitamente ecoando dentro de mim bem depois de o ter deixado para trás; escutava-o ainda antes de o alcançar, quando o ruído martelado do motor rompia a quietude do alcatrão quente e negro, escuro como uma memória que queremos recordar e que se nos escapa.

Um fim de semana a norte para carregar baterias, embalado pelo som do mar que embatia friamente na costa rochosa. Escutei a forma como rebentava e ouvi-me em eco, lá longe, muito longe... embora perceptível.

Um fim de semana a norte, também, para me encontrar. Para perceber que o mar é também calmo e expressivo mesmo sem romper a harmonia das rochas e a quietude de uma noite estrelada e com um luar redondo, quente e que (me) iluminava até o mais profundo de mim.

Terça-feira, 21 de Setembro de 2010

os loucos estão certos



Moves os lábios. Não te ouço, apenas vejo os teus lábios que se agitam numa conversa surda. Não te ouço. Não é suposto ouvir-te. Moves os lábios e encolhes os ombros, talvez duvidando do que dizes, com o olhar fito no horizonte, no teu horizonte.

O verde dos canteiros da praça parece fazer-te dizer que sim, depois da ligeira hesitação de há pouco. A velocidade dos teus pensamentos levou-te a deixar as hesitações e as periclitantes dúvidas.

Afirmas as tuas certezas enquanto o cigarro efectua rápidas viagens até aos teus lábios que se movem apesar da sua mudez. Fitas o horizonte, o teu horizonte. Fitas a praça que se espraia à frente de uma igreja imensa e majestosa.

Vejo-te sorrir. Os dizes felicidade mas eu leio-o nos teus lábios que sorriem perante as tropelias de uma criança. O sol banha a praça, os canteiros, os sinos inertes e até os teus lábios mudos. O sol impõe-se lá no alto, esquecendo-se apenas da fachada da fria igreja. Os teus lábios movem-se mas não te escuto, não te ouço mas sei que falas. Falas sem falar e isso é suficiente para mim.

Percebo-te. Consigo até compreender-te melhor do que os gritos das crianças que delimitam os canteiros. Escuto os seus lábios e nada. Escuto as suas palavras e nada. Nenhum som chega até mim, a não ser as tuas palavras surdas, vindas dos teus lábios que se mexem sem falar.

Escuto-te sem te ouvir e ao teu cigarro que, num vai e vem desenfriado, se vai esgotando, queimando, desaparecendo, desvanecendo... que, nitidamente, se vai esfumando enquanto os teus lábios continuam, como um pêndulo irrequieto, o seu movimento incessante e surdo, mas facilmente compreensível.

escrito inicialmente em guardanapos de papel, a 16 de agosto de 2010

Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010

ontem e hoje


Ontem já foi há muito tempo. Hoje os dias são maiores e com menos tempo para extrair deles todo o sumo de que precisamos. Ontem houve passeios e sorrisos e a responsabilidade tinha ficado fechada em casa... mas...

há sempre um mas nestas histórias...

ao chegar a casa,
quando ontem passou a ser hoje, ali estava ela, impassível e irresistível. Irreversível. Hoje não é, seguramente, ontem mas sei que amanhã o sol vai despontar de novo, o calor que dele irradiar vai aquecer-nos e outros barcos acabarão por cruzar-se connosco.

Hoje a questão terá de ficar adiada. Ainda não foi hoje que o barco aportou. Talvez devêssemos sair desta paragem de autocarros, não creio que ele vá chegar a nós se nos mantivermos por aqui.

Vem, o sol espera-nos...

Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

post em corrida



Há novidades e há resumos... mas não agora. O calor que, seguramente, se vai prolongar por setembro bate-me em cheio recordando-me as férias que já passaram. O trabalho voltou e fê-lo com um ritmo frenético.

Volto já. Agora tenho que correr, qual Carlos e Ega, para o apanhar...

Terça-feira, 27 de Julho de 2010

com o calor e os incêndios há outra coisa que chega

Em período de férias há sempre mais gavetas que se abrem.

um álbum de fotos familiar




Hoje ouvi esta música e pensei no último post que aqui deixei. Lembrei-me do meu pai de semblante carregado e olhos postos num desfilar eterno de fotografias.

Lembrei-me de uma gota que se despedaçou com estrondo no chão daquele restaurante em Chaves e de como eu não soube gerir esse momento... colado à cadeira, a distância que me separava do meu pai era maior do que eu... e assobiei para o lado... podia ter agido de mil maneiras diferentes e optei pela reacção mais simples de todas.


Hoje, ao som desta música, apeteceu-me ter abraçado o meu pai. sem palavras. uma palmada nas costas. um ligeiro acenar com a cabeça. um olhar...


Lembrei-me de que também eu sou "novo e inocente". Lembrei-me de pequenos detalhes e de dar um abraço ao meu pai. hoje.

Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

o calor

Este fim-de-semana o calor apanhou-me de viagem e não mais me largou. Mas não era uma viagem daquelas de passeio ou de devaneio ou de divertimento. Era daquelas viagens que têm mesmo de se fazer e que, só por isso, são uma estopada tremenda. Isso e a A24.

O calor chegou. A afirmação parece-me agora irrefutável, indesmentível, indestrutível (até à próxima invernia, claro!). Isto de ter apenas duas estações no ano é um fado que as pessoas da Covilhã entendem perfeitamente, simplesmente porque sempre foi assim. Acabado o inverno, chegou, e em força, o calor que nos faz peso em cima como se tivesse de matar todas as saudades nossas de uma só vez

Espero agora uma praia que me refresque durante esta semana. Quero sentir a areia quente debaixo dos pés e que a água fria do mar tente derrubar-me, depois acariciar-me e depois novamente derrubar-me... quero um dia na praia longe de carros, alcatrão e televisão e internet e tudo. Quero ter tempo para NÓS.

Vamos?

Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

ricardo

Vejo-te vir, ao longe... reconheço-te primeiro algumas feições e só depois te reconheço. Viajo numa máquina do tempo só minha, recuo bem mais de 15 anos até te reencontrar em brincadeiras de adolescentes. Eras diferente; era diferente. A simplicidade dos dias comandava a nossa vida e, especialmente no verão, a responsabilidade não passava de uma palavra desconexa e sem sentido que podíamos encontrar apenas no dicionário e nas vidas dos outros.

Vejo-te vir em direcção a mim, numa passada cambaleante que não dá aso a equívocos, que não permite más interpretações ou entendimentos dúbios. Viajo no tempo até quando te via descer a rua, ziguezagueando também... por vezes também cambaleavas, mas quando finalmente a bicicleta deixou de ter segredos para ti, também tu deixaste de ziguezaguear e de cambalear... até agora...

Vejo-te perto de mim, a voz atrapalhada pelo álcool e pelo que te resta de sobriedade... falas de um passado nosso como se de uma outra vida se tratasse, como se nós não fôssemos nós há 15 anos, brincando com bolas de futebol e bicicletas pelas ruas íngremes da Biquinha.

Ouço-te as frases desconexas, a gíria covilhanense recheada de palavras que já não ouvia há muito muito tempo. Ouço-te e noto como ziguezagueias também nas conversas que tens, no olhar que se perde longe, lá longe onde o verde encontra o azul a onde há 15 anos a vida era o que quiséssemos fazer dela.

A vida foi-te madrasta. Mas hoje, 15 anos depois, ainda pode ser uma linha direita, ainda pode ser o que quiseres fazer dela... quero reencontrar-te e saber que te posso ver e te posso ouvir como antes, como quando rias ao descer numa bicicleta que quase não travava.

Outrora era possível parar a bicicleta; e hoje?

Sábado, 13 de Março de 2010

a ausência



Esta longa ausência deveu-se à procura de um novo ninho. O ninho foi encontrado e com ele uma enxurrada de detalhes, papéis e afins. Encontros e desencontros com a internet. Uma vida.

Tudo somado, o tempo escasseou. Parece agora querer acertar agulhas comigo e parece, também, que eu acerto as agulhas com ele. Parece... parece...

Volto agora a escrever algumas linhas. Voltarei em breve com outras ideias e outros conteúdos. Voltarei. Contudo, agora, regresso à ditadura de Chronos... certo que, quando ele me der uma pequena abébia, aqui estarei.

Como sempre, como antes...

Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Água Morrente


Meus olhos apagados,
vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
carir, quase morrer...
Meus olhos apagados,
e cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos
na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
como a água morrente.

Camilo Pessanha


Olho a claridade que prepassa pela janela. Vejo a cortina de águia que escorre de um céu escuro como o breu e uma letargia invade-me, toma conta dos meus pensamentos e do meu corpo.

Apetece-me fechar os olhos com força e esquecer esta monotonia de "água morrente", ultrapassar esta claridade cinzenta que as nuvens fazem questão de nos trazer neste inverno. Todos os ruídos são invernosos, os carros que passam lá longe no alcatrão encharcado, os passos miudinhos de pessoas apressadas e a quietude que nos envove, continuamente...

fora chove. Uma chuva miudinha consome-me as esperanças. E eu aguardo, pacientemente, que amanhã o dia amanheça com a força e a vitalidade dos raios de sol numa manhã alegre de inverno.

Até lá, vou ficar - como diz o Rui Veloso - deitado a ouvir a chuva a cair.

Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

batem leve levemente


Hoje o inverno voltou. Diria que oficialmente. O frio já se sente no ar, nos edifícios e um pouco por toda a parte. Ainda não é um frio natalício mas já não me parece que tenhamos, de novo, um outro verão como o que acabou ainda este fim-de-semana.

O frio parece ter chegado e trouxe com ele aqueles flocos de neve fria e húmida que polvilham a serra. Hoje, a serra acordou ainda não vestida de branco, mas com uma pequena prova do que estará para chegar.

A imagem, surripada à Lusa, faz-nos antever como será este inverno. Agora só falta mesmo acertar os relógios para que, oficialmente, entremos na época da depressão, dos cobertores e do fogo crepitante nas lareiras.

Este fim-de-semana, esse horário vai chegar e o calor da praia será um misto de memória e desejo futuro de tempos vindouros.